Sustentabilidade: o design como uma escolha de gestão.
- Néktar Design
- 9 de fev.
- 5 min de leitura
Existe uma frase que circula há algum tempo no universo do design e da sustentabilidade como se fosse um manifesto: todo lixo é um erro de design. Ela é provocadora, direta e talvez acusatória e por isso, funciona bem. Mas será que essa afirmação é verdadeira? Depois de desenvolvermos quatro episódios do podcast Pó de Pólen sobre design e sustentabilidade, percebemos que em grande medida esta afirmação simplifica um problema que é estrutural, sistêmico e cultural. Mas a provocação é útil porque desloca o foco. Em vez de colocar o peso apenas no consumidor, no descarte ou na reciclagem, ela nos obriga a olhar para o início da história, ou seja, o momento em que as coisas são pensadas, desenhadas, produzidas e colocadas no mundo. Se enxergarmos o design como projeto e suas decisões sobre materiais, forma, uso, durabilidade e destino, então o lixo, muitas vezes, nasce muito antes da lixeira.
Mas aqui é importante fazer uma pausa.
Falar que “todo lixo é um erro de design” pode gerar um desconforto em quem trabalha com design no dia a dia. Porque, na prática, o designer raramente tem poder de decisão total sobre o sistema. Projetamos partes do processo. Muitas vezes somos chamados tarde demais. Em muitos contextos, não participamos da definição de materiais, da cadeia produtiva, do preço final ou do modelo de negócio. E, em mercados saturados e altamente competitivos, o critério dominante ainda costuma ser o custo, não o impacto.
Ignorar isso seria injusto.
Talvez o problema não esteja no design em si, mas na ausência do design como pensamento estratégico dentro das empresas. Quando o design entra apenas para “dar forma” a decisões já tomadas, ele perde seu potencial de transformação. Nesse sentido, o lixo pode ser entendido como uma falha sistêmica: de modelo de negócio, de visão empresarial e de cultura produtiva.
Grande parte dos resíduos que produzimos hoje não é fruto de descuido individual ou uso excessivo, mas de escolhas feitas na origem: materiais difíceis de separar, misturas irreversíveis, colas permanentes, produtos descartáveis, ausência de possibilidade de reparo e obsolescência programada. São objetos que já nascem sem futuro. O lixo, aqui, é um objeto que perdeu valor porque não foi pensado para circular

É por isso que a economia circular insiste tanto na ideia de que a transição para modelos mais sustentáveis precisa ser dirigida pelo design, mas não apenas pelo designer. Circular não é reciclar melhor; é eliminar resíduos e poluição desde as etapas iniciais, manter materiais em uso pelo maior tempo possível e, sempre que viável, regenerar sistemas naturais. Isso exige decisões que atravessam estratégia, operação, logística, comunicação e cultura organizacional.
Existe hoje uma obsessão pela reciclagem que, embora importante, muitas vezes desvia a atenção do essencial. Reciclar é lidar com o problema depois que ele já existe. O verdadeiro desafio está antes: projetar para não gerar resíduos. E isso envolve princípios que parecem simples, mas exigem estratégia e coragem para mudar.
Durabilidade: produtos que atravessam o tempo reduzem extração e descarte.
Reparabilidade: quando algo quebra, não deveria virar lixo automaticamente.
Desmontagem e separabilidade: materiais precisam ser separados para voltar ao ciclo produtivo.
Escolha consciente de materiais: menos mistura, mais clareza de destino.
Modelos de negócio circulares: recompra, revenda, aluguel, assinatura, manutenção.
Aqui, o design passa a atuar como arquitetura de sistemas. E isso implica uma mudança para as marcas: repensar cadeia produtiva, relação com o consumidor e até métricas de sucesso.

Um bom exemplo disso é o programa Patagonia Worn Wear, da marca de roupas Patagônia, que incentiva reparo, revenda e troca de produtos usados. A marca trata o fim da vida útil como parte do ciclo. O produto não termina na venda, ele continua em circulação.
O resíduo que já existe: do lixo à matéria-prima
Mas a realidade está posta, o mundo já está cheio de lixo. E isso nos leva a outra pergunta: o que fazer com o resíduo que já existe?
No campo do design, uma ideia fundamental vem do pensamento de que waste equals food: o resíduo de um processo deveria ser alimento para outro, seja em ciclos biológicos (compostagem, biodegradação) ou técnicos (reprocessamento industrial). Isso se materializa em práticas como:
Upcycling, quando o resíduo vira produto com nova função e valor;
Reciclagem regenerativa, quando o material retorna como matéria-prima de alta qualidade.

A marca suíça FREITAG é um clássico nesse sentido, que transforma lonas de caminhão usadas em bolsas, assumindo as marcas do tempo como valor estético.
Outro exemplo interessante é a tecnologia ECONYL. O Econyl é um fio de nylon 100% regenerado, produzido pela Aquafil, feito a partir de resíduos como redes de pesca, carpetes velhos e retalhos de tecido. É uma alternativa sustentável ao nylon virgem, utilizado na moda (especialmente moda praia), acessórios e interiores, oferecendo a mesma qualidade, durabilidade e elasticidade, além de poder ser reciclado infinitamente.
Nem todo produto “feito de lixo” é circular de verdade. Às vezes, o resíduo apenas muda de forma, mas continua sem destino claro no fim de sua nova vida útil. Circularidade exige planejamento do retorno, rastreabilidade, escala e capacidade de reinserção. Por isso, acreditamos que sustentabilidade não pode ser só discurso ou campanha. Ela precisa estar integrada à estratégia, ao modelo de negócio e às decisões de design.
O economista Walter Stahel chama atenção para a importância da extensão da vida útil dos produtos como uma das estratégias mais eficazes ambiental e economicamente. Manter algo em uso é, muitas vezes, mais sustentável do que reciclar.
Que bom que o debate sobre esta temática vem aumentando. Reduzir danos já não é suficiente. Surge a noção de regeneração, sistemas que não apenas minimizam impacto, mas que restauram, renovam e fortalecem ecossistemas naturais e sociais.
Nesse contexto, o design passa a ter um papel ainda mais complexo. É latente a necessidade de criar produtos, serviços e marcas que contribuam positivamente para o mundo. O designer e pensador Ezio Manzini reforça que o design para promover a sustentabilidade envolve transições, como mudanças culturais, sociais, econômicas, tecnológicas e de novas formas de viver, produzir e consumir.

Então, afinal: todo lixo é um erro de design?
Talvez uma resposta mais honesta seja: nem todo lixo é um erro do designer, mas todo lixo revela uma falha de projeto em algum nível do sistema, seja no produto, no modelo de negócio, na infraestrutura ou na cultura que o sustenta.
Para quem trabalha com marcas, essa reflexão é central. Porque marca não é só o que se comunica, é o que se coloca em circulação no mundo. E, em um cenário de crise ambiental, pensar sustentabilidade é uma responsabilidade estratégica.
Talvez o desafio do nosso tempo não seja apenas criar coisas bonitas, úteis ou desejáveis, mas criar coisas que tenham futuro. Que saibam voltar. Que saibam se transformar. Que não precisem desaparecer para dar lugar ao próximo lançamento. E talvez o verdadeiro erro de design seja continuar projetando como se o “fora” ainda existisse.
Se você se interessou por esse assunto, que tal se aprofundar no tema escutando os episódios da segunda temporada do Pó de Pólen? Os 4 episódios estão disponíveis no Spotify, confere lá!




Comentários