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Design e Cidade

  • Foto do escritor: Néktar Design
    Néktar Design
  • 17 de jul.
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

A largura de uma calçada. A altura de um degrau. A presença (ou a ausência) de um banco na praça, de iluminação numa esquina, de sombra num ponto de ônibus. Nada disso é natural: alguém decidiu. A cidade é uma acumulação de decisões de projeto, algumas deliberadas, muitas negligentes, quase todas invisíveis para quem circula por elas todos os dias. E é justamente por isso que o design importa tanto quando falamos de cidade: ele é uma disciplina que pode tornar essas decisões visíveis, discutíveis e, sobretudo, transformáveis.


Durante muito tempo, o design urbano foi entendido como a camada estética da cidade: mobiliário bonito, sinalização eficiente, fachadas harmoniosas. Richard Buchanan ajudou a ampliar esse enquadramento ao descrever as chamadas quatro ordens do design: projetamos símbolos, projetamos objetos, mas projetamos também interações e, no nível mais complexo, sistemas e ambientes nos quais a vida acontece. A cidade opera nesse quarto nível, e é ali que mora o que Buchanan chamou de wicked problems, problemas perversos que se recusam a ter uma formulação única e uma solução definitiva.


Neste texto vamos apresentar 03 pontos de vista a partir da relação do design com a cidade, discutidas ao longo dos 3 episódios sobre Design e Cidade do podcast Pó de Pólen, exemplificando o quão complexa e difusa é esta relação.




Design como tradutor


O primeiro ponto de vista é o da narrativa. Cidades competem por atenção, investimento, turistas, talentos e disso nasceu o campo do place branding. Simon Anholt, referência no tema, traz a ideia de que a reputação de um lugar se constrói por aquilo que ele faz, de forma consistente e ao longo do tempo. Michalis Kavaratzis segue na mesma direção ao afirmar que a marca de uma cidade vive nas experiências e percepções de quem a habita e a visita, muito mais do que em qualquer peça gráfica. Place branding bem feito precisa escutar o que o território já é, fortalecer o que ele tem de singular e alinhar as ações públicas e privadas a essa identidade.


Aqui o design opera como tradutor entre o que a cidade é, o que ela quer ser e o que ela comunica.



Design como reprodução


O segundo ponto de vista pergunta: se a cidade é uma acumulação de decisões de projeto, por quem e para quem ela é projetada?


A geógrafa Leslie Kern, em Cidade Feminista, mostra que a cidade moderna foi desenhada a partir de um sujeito padrão bastante específico: o homem adulto, trabalhador, que sai de casa de manhã e volta à noite. As redes de transporte que privilegiam o trajeto pendular casa-trabalho, os horários dos equipamentos públicos, a escassez de banheiros, a iluminação pensada para vias e não para trajetos a pé, tudo carrega essa premissa.


Caroline Criado Perez, em Mulheres Invisíveis, documenta o mesmo fenômeno com dados. Um exemplo célebre vem da Suécia: ao revisar a política de remoção de neve, uma cidade percebeu que limpava primeiro as vias de carro e por último as calçadas quando inverteram a ordem, os acidentes com pedestres (majoritariamente mulheres que fazem mais trajetos a pé, encadeadas e acompanhadas de crianças) caíram de forma expressiva.


As autoras mostram que o desenho urbano distribui possibilidades de vida. Quando o cuidado entra como critério de projeto, a cidade que resulta é melhor para todo mundo. Jane Jacobs já intuía isso ao defender a rua viva, de usos misturados e "olhos na calçada": a segurança e a vitalidade urbana nascem da presença cotidiana das pessoas, e presença também se projeta.



Design como criatividade


O terceiro ponto de vista que entendemos da relação do design com os espaços é o das cidades criativas. Desde 2004, a Rede de Cidades Criativas da UNESCO reconhece municípios que usam a criatividade como estratégia de desenvolvimento em campos como design, gastronomia, música, literatura, cinema, artesanato, artes midiáticas e arquitetura. O selo funciona na mesma lógica do place branding: reconhece vocações que foram ativadas antes, como consequência de um trabalho de identidade e articulação que o antecede.


Para entrar na rede, uma cidade precisa demonstrar fatores bem concretos: um ecossistema criativo ativo, políticas públicas que o sustentem, impacto real na vida das pessoas e capacidade de se conectar com outras cidades do mundo. Hoje são mais de 400 municípios com este selo.


A cidade criativa não existe sem economia criativa e isso representa uma mudança de lógica econômica: a economia baseada em recurso natural e escala industrial precisa dar espaço também para a economia baseada em conhecimento, cultura e inovação, onde o principal valor está na ideia. Justamente por ser menos tangível e mais difícil de medir, essa economia ainda desafia as cidades na hora de virar política pública de fato. Medellín, exemplo recorrente nesse debate, mostra que uma transformação profunda raramente tem uma causa única, mas sim uma junção de política pública, investimento, cultura e articulação acontecendo ao mesmo tempo.



Reconhecer aquilo que já existe no território é o primeiro ato de projeto de qualquer cidade que queira se chamar criativa.


Nesse cenário, o design aparece duas vezes. Primeiro, como uma das vocações reconhecidas pela rede. Depois, de forma mais profunda, como o modo de articular o ecossistema criativo, conectar poder público, universidades, empresas e comunidades em torno de uma direção comum. Talento criativo isolado não faz uma cidade criativa; o que faz é o sistema que dá continuidade, consistência e escala a esse talento.



Quando o design vira leitura crítica da cidade


Entre junho e julho, o publicitário Luciano Braga espalhou mais de trinta placas por bairros de Porto Alegre. Inspiradas nos rótulos nutricionais, elas alertavam para outra dieta: "Alto em fios", "Alto em descaso", "Alto em poluição visual". A intervenção "Cidade Ultraprocessada" parte de uma analogia: o ultraprocessado é o alimento que consumimos com pressa e que não nutre, e há espaços urbanos assim, lugares por onde só queremos passar.


Foto: Luciano Braga
Foto: Luciano Braga

A ação condensa boa parte do que este texto tenta dizer. É o design gráfico usado como diagnóstico urbano: um problema (o descaso) traduzido em um código que todo mundo reconhece (o rótulo). É design sem mandato, sem orçamento e sem encomenda, produzindo leitura pública sobre o espaço público. E é o que o filósofo Henri Lefebvre chamaria de exercício do direito à cidade, o direito de participar da produção do espaço urbano, e não apenas de habitá-lo.



O design como fio condutor


Cidade criativa, cidade feita para (e por) mulheres, cidade com identidade própria: são conversas que costumam acontecer em salas separadas, com vocabulários distintos. O design é uma das poucas linguagens capazes de atravessá-las, porque todas elas são, no fundo, perguntas de projeto. Quem decide? Com base em que premissas? Para qual sujeito? Com que narrativa? Cuidando de quê?


Uma cidade melhora quando essas perguntas deixam de ser respondidas por omissão. E o papel do design, mais do que dar as respostas, é garantir que elas sejam feitas, em voz alta, com as pessoas certas na sala, olhando para o que o território já tem de potência.




Acompanhe essa conversa escutando os três episódios da terceira temporada do Pó de Pólen no Spotify sobre Design e Cidades.


Referências que inspiram este texto: Richard Buchanan, "Wicked Problems in Design Thinking" (1992); Ezio Manzini, Design, When Everybody Designs (2015); Leslie Kern, Cidade Feminista (2020); Caroline Criado Perez, Mulheres Invisíveis (2019); Jane Jacobs, Morte e Vida de Grandes Cidades (1961); Simon Anholt, Places: Identity, Image and Reputation (2010); Michalis Kavaratzis, "From City Marketing to City Branding" (2004); Henri Lefebvre, O Direito à Cidade (1968).

 
 
 

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