Design & Cultura: A UrgĂȘncia de Novos Olhares para a Identidade Brasileira no Design
- Néktar Design
- 7 de fev.
- 5 min de leitura
O design sempre foi um reflexo das culturas que o produzem. No Brasil, um paĂs de dimensĂ”es continentais e mĂșltiplas identidades, a relação entre design e cultura tem sido historicamente permeada por tensĂ”es entre a valorização de referĂȘncias locais e a influĂȘncia de estĂ©ticas globais. A Bienal Brasileira de Design, que aconteceu em dezembro de 2024, em Aracaju, trouxe essa questĂŁo Ă tona ao propor um debate sobre a necessidade de novos olhares para as diversas culturas e identidades brasileiras na prĂĄtica do design.


Esta edição da Bienal também marcou um avanço significativo ao abrir espaço para o design feito por pessoas negras, destacando tanto sua contribuição histórica, quanto sua relevùncia contemporùnea. A produção de designers negros no Brasil, que por muito tempo foi invisibilizada, vem ganhando cada vez mais reconhecimento, evidenciando novas linguagens e narrativas visuais que dialogam com identidade, ancestralidade e inovação.
Queremos aqui aprofundar essa discussĂŁo, explorando como a valorização da diversidade cultural pode enriquecer o design brasileiro e, consequentemente, disseminar e valorizar os diversos "brasisâ que existem dentro do Brasil.
Minimalismo: ainda vemos por aqui!
Nos Ășltimos anos, o minimalismo se consolidou como a estĂ©tica predominante no design grĂĄfico global e segue permeando a identidade visual de grandes marcas globais. Baseado nos princĂpios modernistas da Bauhaus e da Escola de Ulm, esse estilo preza pela clareza visual, pelo uso de poucos elementos grĂĄficos e pela funcionalidade objetiva. No universo do branding, da tipografia e da identidade visual, essa abordagem se traduz em logotipos simplificados, paletas de cores neutras e layouts limpos, muitas vezes resultando em uma comunicação visual homogĂȘnea e desterritorializada.
No entanto, essa hegemonia levanta um questionamento fundamental: atĂ© que ponto essa neutralização estĂ©tica contribui para o apagamento das expressĂ”es visuais locais? No Brasil, um paĂs cuja identidade visual Ă© marcada pela pluralidade, pela cor e pela riqueza grĂĄfica de sua cultura popular, a adoção generalizada do minimalismo pode representar uma perda de autenticidade no design grĂĄfico. Se o objetivo da comunicação visual Ă© criar conexĂ”es simbĂłlicas e emocionais, um design que ignora sua territorialidade pode se tornar genĂ©rico e sem identidade.
Guy Julier (2013) argumenta que a globalização do design resultou em uma neutralização das particularidades locais, impulsionada por um ideal de âuniversalidadeâ que muitas vezes reflete uma perspectiva eurocentrada. Esse fenĂŽmeno Ă© evidente no branding e na comunicação visual das marcas brasileiras, que frequentemente adotam um design âinternacionalizadoâ, desconsiderando expressĂ”es grĂĄficas locais.
Rafael Cardoso (2012) ressalta que o design, enquanto ferramenta de construção simbĂłlica, nĂŁo pode se desvincular do seu contexto cultural. No entanto, a predominĂąncia do minimalismo muitas vezes leva a um esvaziamento semĂąntico, onde a identidade visual se torna genĂ©rica e desterritorializada. Essa hegemonia estĂ©tica impacta diretamente a percepção de marca, pois impede que elementos culturais especĂficos sejam incorporados ao design de maneira autĂȘntica.
Aloisio Magalhães, um dos pioneiros e expoente do design no Brasil, sempre defendeu a criação de um design genuinamente brasileiro, capaz de absorver e reinterpretar as tradiçÔes locais. Para ele, um design nacional só poderia emergir a partir da valorização do fazer artesanal e da incorporação das técnicas populares no desenvolvimento de produtos contemporùneos.
Em entrevista ao jornal O Globo em 1977, MagalhĂŁes afirmou:
âSe conseguirmos detectar, ao longo do espaço brasileiro, as atividades artesanais e influir nelas, estaremos criando um design novo, o design brasileiro. Estamos condenados a absorver, bem ou mal, o design dos paĂses mais avançados. Mas um investimento de base no fazer brasileiro poderĂĄ alterar muita coisa no universo supersofisticado que importamos.â
A partir dessa perspectiva, Magalhães propÎs os conceitos de metadesign e paradesign. O metadesign refere-se à necessidade de compreender o contexto social em um sentido amplo, enquanto o paradesign se baseia na valorização das formas de fazer e atuar de cada grupo social, contribuindo para o fortalecimento da cultura nacional.
A Cultura Visual Brasileira Como ResistĂȘncia ao Design GenĂ©rico
Se o minimalismo busca a universalidade através da redução de elementos gråficos, a cultura brasileira, por sua vez, se manifesta na complexidade, na mistura de cores, nas texturas e nos padrÔes ornamentais. No design gråfico, isso se traduz em cartazes vibrantes, tipografias experimentais e ilustraçÔes que remetem às artes visuais populares.
Exemplos histĂłricos dessa resistĂȘncia podem ser encontrados no movimento tropicalista e na identidade grĂĄfica dos anos 1960 e 1970, que desafiaram a estĂ©tica racionalista imposta pelo modernismo europeu. Designers como RogĂ©rio Duarte e Guto Lacaz souberam incorporar elementos da cultura visual brasileira sem comprometer a funcionalidade do design.
Outro exemplo é a estética dos cordéis nordestinos, cujas xilogravuras carregam uma identidade gråfica forte e enraizada na cultura popular. O mesmo pode ser dito dos lambe-lambes urbanos, das capas de discos do movimento Manguebeat e dos cartazes de festivais culturais. Esses elementos visuais preservam e amplificam a identidade local.
A identidade grĂĄfica do Brasil Ă© marcada por um jogo entre ordem e caos, entre geometria e improvisação, entre influĂȘncias externas e reinvençÔes locais. No entanto, essa riqueza visual frequentemente Ă© deixada de lado em favor de uma estĂ©tica âlimpaâ e neutra, que muitas vezes enfraquece a força narrativa das marcas e produtos brasileiros.

Minimalismo e Cultura Podem Coexistir no Design GrĂĄfico?
A solução não estå em rejeitar o minimalismo completamente, mas em ressignificå-lo dentro do contexto brasileiro. O design gråfico pode se beneficiar de um minimalismo que não seja sinÎnimo de apagamento cultural, mas que incorpore de maneira sutil elementos da cultura visual nacional.
PaĂses como JapĂŁo e MĂ©xico conseguiram criar abordagens visuais minimalistas que ainda preservam sua identidade cultural. No JapĂŁo, o wabi-sabi â uma filosofia estĂ©tica que valoriza a imperfeição e a assimetria â Ă© incorporado ao design grĂĄfico de forma equilibrada. No MĂ©xico, a identidade visual contemporĂąnea resgata padrĂ”es grĂĄficos e cores vibrantes, mantendo sua forte conexĂŁo com o artesanato e a tradição grĂĄfica do paĂs.
O Brasil pode seguir um caminho semelhante, desenvolvendo um design grĂĄfico que dialogue com sua prĂłpria cultura. Aloisio MagalhĂŁes alertava que o design deve evitar a mera importação de tendĂȘncias sem reflexĂŁo. Se o design grĂĄfico brasileiro deseja se destacar no cenĂĄrio internacional, ele precisa encontrar um equilĂbrio entre a clareza visual e a identidade cultural.
A identidade visual brasileira sĂł serĂĄ plenamente consolidada quando o design grĂĄfico for capaz de assimilar as complexidades culturais do paĂs, sem se submeter a uma estĂ©tica universalista que ignora sua territorialidade. O minimalismo pode ter seu espaço, mas deve ser reinterpretado para que nĂŁo signifique o apagamento da identidade visual nacional.
Se o Brasil deseja se destacar no cenĂĄrio global como um polo de criatividade e inovação, o design precisa se reconectar com a cultura nacional. A valorização da diversidade nĂŁo Ă© apenas um ato de resistĂȘncia, mas uma estratĂ©gia essencial para construir um design autĂȘntico, relevante e sustentĂĄvel.